Suva em choque: fico com 58 gols e público silente em partida histórica

A partida entre Fiji e Inglaterra em Everton, Merseyside, foi um choque de realidade. Mais do que um resultado desastroso para a equipa da ilha – 15 tentos a 11 – a atmosfera no estádio revelou um paradoxo intrigante: 50.000 adeptos britânicos, e uma parcela considerável do público local, preferiram assistir ao jogo em silêncio, quase como se apoiassem a seleção inglesa.

Um palco desconfortável para a história

O avançado Brian Labone e Howard Kendall, figuras emblemáticas do passado do futebol inglês, adornavam o estádio com as suas imagens, um contraste gritante com a apatia demonstrada pelos presentes. A visão do Mar do Norte, longe das paisagens familiares do Pacífico Sul, foi um dos detalhes mais marcantes do dia.

A recorde de público e o silêncio que gritava

A recorde de público e o silêncio que gritava

Apesar da equipa de Fiji ter alcançado a maior assistência na sua história – 15.000 espectadores, um número que parecia colossal até há pouco – o marcador de 58 pontos de diferença no final do encontro não gerou o alvoroço esperado. O canto “Go Fiji” permaneceu um eco mudo, um testemunho da distância cultural e do desinteresse aparente.

O facto de o CEO da federação, possivelmente sorrindo discretamente, ser o único a demonstrar entusiasmo, adiciona uma camada de ironia à narrativa. A verdade é que Fiji, com um rendimento superior ao de uma edição capital, enfrenta um obstáculo imponderável: a falta de uma infraestrutura adequada para receber os jogos do novo Nations Championship.

Um campeonato em descompasso

Um campeonato em descompasso

As regras do torneio, elaboradas por seis nações e Sanzaar, exigem estádios com capacidade superior a 25.000 lugares. Uma exigência que deixa o estádio de Suva, e, por extensão, o sonho de Fiji de sediar o campeonato, à margem. A situação é agravada pelo facto de Inglaterra não jogar em Fiji desde 1991, e a ausência de um compromisso futuro.

A logística é um pesadelo. A equipa inglesa percorrerá mais de 41.000 quilómetros em três semanas, um esforço que coloca em causa o bem-estar dos jogadores e as promessas de sustentabilidade ambiental de World Rugby. A realidade é que, por detrás das aparências, o Nations Championship é um projeto impulsionado pela televisão, onde a estética prevalece sobre os valores tradicionais do rugby.

A distância que separa os lares

A distância que separa os lares

A distância entre Suva e Everton, 9.998 quilómetros, é mais do que uma mera localização geográfica. É a distância entre uma cultura vibrante e uma realidade imposta. Fiji, com a sua identidade única e o seu amor pelo rugby, vê-se confrontada com um sistema que a exclui, mesmo que lhe garanta um prémio financeiro considerável.

A experiência de Fiji no Cardiff, com apenas 15.000 espectadores, revela a importância do apoio local. A equipa, que se sentia desfavorecida em condições adversas, demonstrava que a paixão dos seus fãs é um trunfo inestimável. A gestão do país, no entanto, parece ter encontrado uma solução – e um lucro – inesperada: transformar a partida em Everton num evento de escala global, mesmo que o resultado não corresponda às expectativas.

A situação em Newcastle, onde o Japão joga contra a Irlanda em um estádio com capacidade inferior a 25.000 lugares, é um sintoma da loucura que define este campeonato. Eddie Jones, o técnico japonês, justifica a medida com a “verdade nua e crua”, admitindo que a Irlanda tem o poder em World Rugby. Um jogo que deveria ser sediado em Tóquio, a capital do país, é disputado em Sydney, Australia, para evitar que a Irlanda tenha que viajar excessivamente. Uma lógica que, para além de inconveniente, demonstra a desconexão entre o mundo do rugby e os seus princípios fundamentais.

Em suma, a partida em Everton não foi apenas uma derrota. Foi um alerta. Um lembrete de que o rugby, em busca de audiências e lucros, está disposto a sacrificar a sua alma.