Guerra na ucrânia revela a fragilidade climática: uma nova aliança surge
O conflito na Ucrânia, com suas imagens devastadoras, expõe não apenas o custo humano da guerra, mas também uma crise climática subjacente. A destruição de infraestruturas, a interrupção das cadeias de abastecimento de petróleo, gás e fertilizantes, servem como um alerta brutal: a dependência global de combustíveis fósseis é um risco iminente e crescente.

A urgência de romper com o passado
A emissão de toneladas de gases de efeito estufa provenientes de ataques aéreos, refinarias e infraestruturas energéticas, agrava ainda mais a situação, empurrando o planeta para um ponto de não retorno, segundo cientistas. Enquanto líderes de países produtores de petróleo resistem a uma mudança de curso, a esperança reside em uma iniciativa promissora.
No recente encontro da ONU Cop30, a Arábia Saudita liderou um bloqueio a propostas para um “roteiro” de eliminação gradual de combustíveis fósseis, sequer mencionando o termo no texto final. No entanto, 85 países que se opuseram a essa manobra agora podem estar prestes a reverter o quadro. Em abril, Colômbia e Holanda sediarão uma conferência crucial, a Primeira Conferência Internacional sobre Transição Justa Longe dos Combustíveis Fósseis, que se diferenciará por operar sob regras de maioria, eliminando o poder de veto de poucos países.
O que torna esta conferência diferente? A ênfase não estará na política, mas na economia. As forças implacáveis do mercado, incluindo o potencial surgimento de uma nova superpotência econômica, moldarão o debate. A conferência, co-patrocinada por Colômbia e Holanda – um casamento simbólico, considerando que a Colômbia é o quinto maior exportador de carvão do mundo e a Royal Dutch Shell, uma das maiores empresas petrolíferas – já convidou países que apoiaram o roteiro na Cop30, além de líderes de governos subnacionais, como o governador da Califórnia, Gavin Newsom, um potencial candidato à presidência dos EUA em 2028.
O objetivo é claro: dar início ao roteiro bloqueado na Cop30. Ministros da energia e do ambiente de países dispostos a trilhar um novo caminho compartilharão planos para a transição de suas economias, sem abandonar trabalhadores e comunidades. Ativistas climáticos, líderes indígenas, representantes sindicais e outros atores da sociedade civil também participarão, enriquecendo o debate com suas experiências e ideias.
Um dos pontos cruciais será a eliminação dos US$ 7 trilhões anuais gastos em subsídios a combustíveis fósseis, de forma a não penalizar as comunidades, trabalhadores e bases tributárias que dependem desses recursos. A iniciativa conta com o apoio do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, que instou a Agência Internacional de Energia a criar uma plataforma global para alinhar o declínio dos investimentos em combustíveis fósseis com o rápido crescimento de energias limpas.
A força motriz por trás da conferência é a potencial união econômica de 85 países que apoiaram o roteiro na Cop30, representando um Produto Nacional Bruto (PNB) combinado de US$ 33,3 trilhões – superior ao dos EUA (US$ 30,6 trilhões) e da China (US$ 19,4 trilhões). Essa força econômica pode gerar ondas de choque nos mercados financeiros, ministérios e empresas em todo o mundo.
Como observou Mohamed Adow, diretor da Power Shift Africa, “um bloco dessa magnitude sinalizando sua intenção de abandonar os combustíveis fósseis enviaria uma mensagem inequívoca de que a era do petróleo, gás e carvão está terminando”. A experiência do Acordo de Paris de 2015 demonstra o poder da mudança: após o compromisso de limitar o aumento da temperatura a “bem abaixo” de 2°C, o setor público e privado iniciaram uma mudança de rumo, com redução de projetos de combustíveis fósseis e aumento dos investimentos em energia renovável. O planeta estava a caminho de um aumento de 4°C, mas o acordo ajudou a reduzir essa projeção para 2,7°C.
A participação da Califórnia, com seu PIB de US$ 4,1 trilhões, poderia solidificar ainda mais essa nova superpotência econômica, elevando seu valor para US$ 37,4 trilhões, rivalizando com o combinado dos EUA e da China.
A conferência em Colômbia representa uma oportunidade para inverter a narrativa sobre a mudança climática, uma vez que a maioria da população mundial (80-89%) deseja que seus governos tomem medidas mais enérgicas. É hora de amplificar a mensagem da energia limpa e agir, antes que seja tarde demais.
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