Egito: um oásis de tolerância religiosa em tempos de turbulência?
Em meio à poeira e à instabilidade que assolam o Oriente Médio, um quadro surpreendente se desenha no Egito: um florescimento do cristianismo copta e um raro pacto de tolerância religiosa, impulsionado por um governo autoritário. A construção de novas igrejas, antes impensável, agora é uma realidade, mas a que custo?
O renascimento das igrejas e a estratégia de sisi
Em Luxor, a imponente cúpula da Igreja de São Miguel Arcanjo se destaca na paisagem, um símbolo tangível da mudança. Mais de 9.000 fiéis podem se reunir em seu interior, ainda com áreas em construção, um reflexo do fervor e da esperança que permeiam a comunidade copta. Desde 2016, mais de 2.500 igrejas e edifícios religiosos foram reconhecidos ou legalizados, um número que demonstra a prioridade dada pelo governo de Abdel Fattah al-Sisi à questão religiosa.
Sisi, que ascendeu ao poder em 2013 após o golpe militar que derrubou Mohamed Mursi, tem promovido ativamente a unidade nacional entre muçulmanos e cristãos. Visitas regulares à missa de Natal copta, a construção da maior igreja do Oriente Médio, a Catedral do Nascimento de Cristo, e a proteção reforçada de igrejas por forças de segurança são medidas que visam demonstrar o compromisso do governo com a segurança e a liberdade religiosa. Mas, como observa um funcionário do governo em entrevista ao jornal Al-Ahram, “a integração dos cristãos fortalece a sociedade e a economia”.

Um passado de discriminação e violência
A história dos coptas no Egito é marcada por séculos de discriminação, apesar de representarem cerca de 10% da população, aproximadamente 13 milhões de pessoas. Durante o governo de Anwar Sadat, na década de 1970, a imposição de uma identidade nacional muçulmana e a influência de correntes islâmicas conservadoras intensificaram a perseguição. Nos anos 1990, atentados contra coptas e igrejas se tornaram frequentes, culminando em uma onda de violência após a queda de Hosni Mubarak em 2011, durante o governo de Mursi, quando muitos coptas foram mortos.
O que Poucos Lembram: A diáspora copta, embora menor do que em outros países do Oriente Médio, foi significativa, impulsionada pela pobreza, falta de oportunidades e o medo de perseguição. A profunda ligação com a terra, no entanto, e a ausência de redes internacionais robustas, mantiveram muitos coptas no Egito, apesar dos riscos.

Por trás da tolerância: vigilância e controle
A aparente tolerância religiosa no Egito, no entanto, não é isenta de controvérsias. O governo de Sisi é frequentemente criticado por seu histórico de repressão a opositores políticos e por transformar o país em um estado de vigilância. A proteção de igrejas e a criminalização de discursos de ódio são, em parte, medidas para controlar a narrativa e projetar uma imagem de tolerância para o mundo exterior.
Como aponta a Human Rights Watch, “apesar dos avanços na construção de igrejas, persistem desigualdades estruturais, especialmente no acesso a cargos governamentais e na proteção contra a violência local”. A presença constante de soldados armados em frente à Igreja de São Miguel Arcanjo em Luxor, um contraste gritante com os cânticos e o aroma de incenso que emanam do interior, ilustra a tênue linha entre segurança e opressão.
A situação dos coptas no Egito é um reflexo complexo das dinâmicas políticas e sociais do país. A tolerância religiosa promovida por Sisi pode ser vista como uma estratégia para fortalecer o regime e consolidar o apoio interno, mas também como um passo importante em direção a uma sociedade mais inclusiva. O futuro dirá se este oásis de tolerância em meio ao deserto do extremismo será sustentável a longo prazo.