Refúgio em meio ao caos: autor de best-sellers constrói esperança para crianças em porto príncipe
Em meio ao cenário de violência e desespero que assola Porto Príncipe, capital do Haiti, o autor de best-sellers Mitch Albom construiu um oásis de esperança: o orfanato Have Faith Haiti. A estrutura, com muros altos e cercas de arame farpado, contrasta com o refúgio que abriga 56 crianças e mais de 50 funcionários, oferecendo um futuro para aqueles que perderam tudo.
Um santuário em meio ao caos
A realidade em Porto Príncipe é brutal: a criminalidade, incluindo assassinatos, estupros e assaltos, é uma constante. A capital haitiana, sob o controle de gangues armadas, enfrenta um colapso governamental desde a morte do presidente Jovenel Moïse em 2021, com cerca de 90% da área dominada por facções. Mais de um milhão de pessoas foram deslocadas pela violência.
Albom, um judeu, encontrou em 2010, após o devastador terremoto que ceifou a vida de aproximadamente 200 mil pessoas, uma oportunidade de ajudar. Inicialmente, auxiliou na reconstrução de um orfanato cristão administrado por um pastor de 84 anos, que confessou não ter recursos para manter o local. Albom, surpreendentemente, ofereceu-se para assumir a gestão. “Eu disse, ‘Bem, eu poderia administrar isso. Como é que isso pode ser tão difícil?’”, relatou.
Hoje, o orfanato, financiado por Albom e sua esposa Janine, oferece às crianças uma infância que lhes foi roubada. A rotina é estruturada em torno do amor, da fé e da educação. As crianças, muitas delas órfãs ou abandonadas, estudam francês e inglês, preparando-se para o ensino superior. A ausência de celulares, televisões e computadores pessoais cria um ambiente de aprendizado mais puro, com uma capacidade de atenção notável.
Yonel, diretor haitiano do Have Faith Haiti, que foi acolhido no orfanato aos cinco anos, descreve o sentimento de abandono que muitos dos pequenos carregam. “Eles precisam desse laço, você sabe? Então eu me coloco ali por eles”, explica. A segurança é uma prioridade, com exercícios de emergência regulares e um bunker com suprimentos para um mês.
Em oito anos, 16 jovens do orfanato concluíram o ensino médio e conquistaram bolsas de estudo em universidades americanas. No entanto, a maioria decidiu retornar ao Haiti para trabalhar no orfanato por dois anos, visando contribuir para a reconstrução do país. A situação política instável, com a suspensão de eleições e a redução drástica da ajuda financeira dos Estados Unidos, dificulta o futuro do Haiti. A ONU autorizou o envio de tropas internacionais para auxiliar a polícia local, mas a implementação tem sido lenta.
Apesar dos desafios, o projeto tem gerado esperança. Seis alunos se preparam para se formar neste ano e buscam oportunidades de estudo nos Estados Unidos, embora a obtenção de vistos seja incerta. Albom, comovido pela resiliência das crianças, afirma que a educação é a chave para transformar o futuro do Haiti. “Cada criança tem esse potencial dentro dela, não importa de onde venha. Se você lhes der algo belo e calmo e esperançoso, elas aspirarão a essas coisas. E isso é o que vemos em nossos filhos.”
Apesar do cenário sombrio, a determinação dessas jovens haitianas de retornar e reconstruir seu país é um testemunho da força do espírito humano. Elas representam a promessa de um futuro diferente, um futuro que elas mesmas estão dispostas a construir.