Cultura em chamas: manifestantes atacam inauguração do livro em buenos aires
Buenos Aires amanheceu com a fumaça de protestos. A 50ª Feria Internacional do Livro foi inaugurada sob uma chuva de xingamentos e cartazes contra o governo de Javier Milei, desencadeando uma reação visceral no público e na própria Secretaria de Cultura.
O show de incerteza e desrespeito
A cena, repetidora de eventos passados, viu manifestantes erguer símbolos de oposição ao governo, enquanto a exposição do secretário Leonardo Cifelli era constantemente interrompida por silbidos e consignas. A atmosfera, outrora permeada pelo som de Fito Paez, transformou-se num palco de confrontos verbais e emocionais.
A mensagem estampada nos cartazes – “Até quando os livros junto com Martínez de Hoz e a Sociedade Rural?” – ecoava um passado autoritário, um lembrete amargo da fragilidade das liberdades culturais em tempos de crise. A referência à ditadura argentina, por si só, já era um grito de alerta.

Cifelli, a defesa amarga
Cifelli, visivelmente irritado, tentou manter a compostura, mas sua resposta – “Saquen os cartazes, são quatro” – apenas inflamou ainda mais a multidão. O discurso, já comprometido com a defesa da gestão de Milei e a narrativa de “transformação profunda”, foi constantemente sabotado pelas interrupções. A repetição insistente de “Javier Milei e Karina Milei” revelava uma estratégia desesperada, quase grotesca, de ancoragem na figura do governo.
A provocação final, ligada à decisão judicial americana contra a nacionalização da YPF, demonstra uma clara intenção de desviar o foco das questões reais, mergulhando a feira numa discussão tangencial sobre o passado político argentino. Um desvio forçado, uma manobra tática desprovida de qualquer serventia.
O contraste com o concerto surpresa de Fito Paez, que culminou em aplausos e entusiasmo, era gritante. Uma breve pausa na tempestade, um lampejo de esperança em meio ao caos. Mas a realidade, como sempre, era bem mais sombria.
Um fechamento contundente
A inauguração da feira, longe de celebrar o livro e a cultura, tornou-se um símbolo da polarização política argentina. Um microcosmo da crise que assola o país, onde a liberdade de expressão se transforma em arma de ataque. Mais do que uma manifestação de descontentamento, foi um ato de agressão, um grito de guerra que ecoará pelos corredores da literatura e da memória.
