Desinformação ataca o campo: ameaça à democracia e à segurança alimentar
A Europa enfrenta uma crescente onda de desinformação direcionada a zonas rurais e agricultores, um fenômeno que a Comissão Europeia (CE) e especialistas em verificação de fatos estão monitorando com crescente apreensão, especialmente à medida que nos aproximamos das eleições. A manipulação da informação, com raízes em diversos cantos do mundo, coloca em risco a estabilidade política e a segurança alimentar do continente.
O agronegócio no epicentro da guerra informacional
Fontes do Observatório Ibérico de Media Digitais (Iberifier), dos serviços da CE e de entidades ligadas ao desenvolvimento rural apontam para uma corrente preocupante de desinformação focada no setor agroalimentar. Embora a Rússia seja um dos principais atores identificados, a origem da desinformação é multifacetada e, por vezes, até mesmo interna. Durante o processo de aprovação do acordo comercial com o Mercosul, a CE detectou campanhas de desinformação específicas em zonas rurais, visando desacreditar a União Europeia e semear a dúvida entre os agricultores.
A presidente da CE, Ursula von der Leyen, já havia alertado para essa problemática, solicitando ao Comissário Europeu da Agricultura, Christophe Hansen, que combatesse a desinformação no meio rural. A Rede Espanhola de Desenvolvimento Rural (REDR) e a rede europeia ELARD também estão colaborando ativamente com Bruxelas na luta contra as notícias falsas, reconhecendo a crescente deriva da desinformação para o território rural.

Narrativas perigosas: clima, imigração e a polarização
Ramón Salaverría, catedrático de Jornalismo da Universidade de Navarra e coordenador do Iberifier, alerta para duas vertentes principais de desinformação no Ocidente: a relacionada com a crise climática e, de forma menos frequente, a associação da imigração com as zonas rurais. No que tange ao clima, a narrativa negacionista evoluiu para um questionamento das medidas propostas por organismos internacionais para mitigar o aquecimento global, alimentando a desconfiança e a inércia.
O caso de Torre Pacheco (Murcia) ilustra a perigosa ligação entre imigração e discurso de ódio: um fluxo de mensagens inflamadas nas redes sociais culminou em altercações violentas, baseadas na ideia de que a chegada de imigrantes “trastorna a paz ou a harmonia” desses lugares. A manipulação da informação, nesse contexto, assume contornos alarmantes, com potencial para desestabilizar comunidades inteiras.
Quem está por trás das mentiras?
Salaverría distingue três atores principais na desinformação sobre agroalimentação: grandes potências com interesses geoestratégicos, organizações políticas ou ativistas e, por fim, o que ele chama de “pura estafa”, com motivações puramente financeiras. A Rússia é apontada como um dos “grandes agentes de injerência e manipulação informativa internacional”, difundindo narrativas que afetam a energia, a imigração e a alimentação. No entanto, o especialista ressalta que a origem da desinformação pode ser diversa, incluindo organizações políticas de direita e ultraesquerda, bem como empresas que buscam desestabilizar a concorrência. A cifra fala por si só: Em Espanha, Marrocos é um alvo frequente da manipulação.
Eleições e a explosão da desinformação
A proximidade das eleições agrava ainda mais a situação, como demonstram os casos de Portugal, onde os incêndios foram utilizados como combustível para a desinformação, explorando o componente emocional e as vítimas. A desinformação durante a dana de Valencia serve como um alerta sobre a facilidade com que a mentira se propaga em momentos de crise. A vulnerabilidade dos habitantes rurais, especialmente os idosos, exige uma análise cuidadosa. Embora estudos indiquem que os maiores de 65 anos estejam mais expostos, é fundamental que as organizações agrarias e os próprios moradores defendam seus interesses e denunciem o abandono em termos de informação de qualidade, respaldada por evidências científicas.
A luta contra a desinformação no meio rural não é apenas uma questão de verificar fatos; é uma questão de fortalecer a resiliência das comunidades, promover a educação midiática e garantir o acesso a informações precisas e confiáveis. A verdade, afinal, é a melhor defesa contra a manipulação.