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Guerra na ucrânia silencia festivais, mas fé krishna resiste

Em meio ao conflito que assola a Ucrânia, a vibrante expressão pública do movimento Hare Krishna, conhecida por seus coloridos festivais de rua, foi drasticamente reduzida. No entanto, a fé persiste nos templos, impulsionada por orações fervorosas e um compromisso inabalável com a comunidade, que se manifesta em ações concretas de apoio e proteção.

A filosofia da ajuda em tempos de guerra

A filosofia da ajuda em tempos de guerra

Para os devotos de Hare Krishna, a divisão do trabalho é intrínseca à natureza humana. “Na nossa filosofia, as pessoas são categorizadas de acordo com suas habilidades e propensão. Os brahmanes, que estudam e ensinam, são essenciais, mas também há aqueles que produzem, constroem, administram e protegem”, explica Vallabha, um monge lituano que encontrou refúgio em Kiev. A guerra, paradoxalmente, intensificou essa vocação ao serviço. Aquele que não empunha armas, contribui de outras formas.

A realidade é que, apesar de não incentivarem o alistamento, dezenas de Hare Krishna se juntaram às fileiras do exército ucraniano desde o início da invasão russa, uma decisão pessoal que se enquadra na filosofia de autossacrifício e proteção da comunidade. A perda é sentida profundamente; mais de cinquenta devotos, muitos deles militares, perderam suas vidas em combate, como atesta Achyuta Priya, um dos pioneiros do movimento na Ucrânia, que, décadas atrás, enfrentou perseguições e internações em hospitais psiquiátricos.

Vallabha ressalta que a conscientização espiritual é o antídoto para o conflito. “Quando a pessoa tem consciência, busca a paz. Ela não necessita da terra ou do dinheiro de outrem, pois sabe que Deus providencia tudo”, afirma. A mensagem é clara: a mobilização se estende além do campo de batalha, abrangendo o serviço à sociedade.

Nos primeiros dias da invasão, o templo de Kiev se transformou em um refúgio improvisado, acolhendo dezenas de devotos em seus porões, protegidos dos bombardeios. Paralelamente, a organização Food for Life, criada pelo fundador do movimento, Srila Prabhupada, intensificou suas ações humanitárias, distribuindo mais de cinco milhões de refeições vegetarianas em todo o país. Lolita Coker, coordenadora da distribuição em Kiev, retornou recentemente do México para somar esforços, reforçando o compromisso com o princípio ahimsa – a não violência – que permeia as escrituras védicas.

“Aqui na Ucrânia, desde o início da guerra, nossa missão é chegar aos locais dos ataques, oferecer comida e apoio àqueles que perderam tudo”, declara Coker, cujo trabalho se estende desde a capital até as áreas mais afetadas pelos combates. O templo, outrora palco de celebrações vibrantes, tornou-se um farol de esperança e solidariedade em meio à devastação.

A resiliência dos Hare Krishna na Ucrânia, portanto, transcende a mera preservação da fé. É uma demonstração de como a espiritualidade pode se traduzir em ação concreta, em um mundo assolado pela violência e pela incerteza. Uma lição de que, mesmo nos momentos mais sombrios, a compaixão e o serviço ao próximo podem florescer.