Herança de guerra: um arquivo familiar revela segredos da história espanhola

Em Almodóvar del Campo, Ciudad Real, uma casa guarda um tesouro improvável: um arquivo meticuloso da história espanhola, reunido por um tapicero apaixonado e perpetuado pelo seu filho, Prudencio Mateos, jornalista e livreiro. Mais do que um refúgio pessoal, a residência é um portal para o passado, resistindo ao esquecimento com livros, periódicos e objetos que ecoam a turbulência da Segunda República e da Transição.

Um tapicero contra o esquecimento

Eliezer Ángel Mateos Martín, pai de Prudencio, iniciou essa jornada de preservação com apenas onze anos, durante o início da Guerra Civil Espanhola. A experiência traumática da guerra, marcada pela evacuação de Madrid e a subsequente vida em um ambiente de escassez, impulsionou-o a construir um arquivo singular. Prudencio, herdeiro dessa paixão, descreve a herança como algo “mamado”, uma vocação enraizada na família.

Ao longo de décadas, Eliezer dedicou-se a vasculhar sebos e mercados de pulgas em Madrid, acumulando exemplares republicanos, exilados e da era franquista. “Apesar de muitos terem sido queimados e destruídos, alguns sobreviveram, graças à coragem de quem os guardou”, explica Prudencio, revelando a importância de preservar tanto as vozes da República quanto as do regime.

De guias telefônicos a pasquines de trincheira

De guias telefônicos a pasquines de trincheira

A coleção transcende a mera acumulação de livros. Inclui cartazes políticos, medalhas de campanha, selos, fotografias, objetos pessoais e documentos raríssimos, como uma guia telefônica de julho de 1936 que lista os endereços de Manuel Azaña e Primo de Rivera. Revistas ideológicas, pasquines originais, carnês de partidos e até mesmo cartas de soldados alfabetizados completam o inventário, que já conta com mais de 2.500 livros catalogados, e mais de 8.000 ainda por registrar.

A diversidade de materiais reflete a complexidade da época: publicações em espanhol, inglês, francês, italiano, português e até japonês, guias de cidades, livros de arte, literatura, história local e uma seção dedicada à fotografia histórica. “Temos livros de ambos os lados, da Espanha republicana e do lado franquista. É preciso ter dos dois campos”, ressalta Prudencio, enfatizando a importância de um olhar abrangente sobre a história.

Um legado em risco?

Um legado em risco?

Manter um arquivo dessa magnitude apresenta desafios constantes. A casa em Almodóvar del Campo, adaptada ao longo dos anos para abrigar a crescente coleção, enfrenta uma questão crucial: o futuro. Prudencio, que preferiria abrigar a biblioteca em Madrid, mas a quantidade de material inviabiliza a mudança, não tem planos de transformá-la em fundação ou fechá-la ao público. O destino desse valioso legado dependerá das próximas gerações ou da sensibilidade de instituições que reconheçam seu valor.

Enquanto a coleção continuar a crescer e a ser aberta a pesquisadores e interessados, o arquivo de Prudencio Mateos permanecerá como um testemunho vivo da história contemporânea espanhola – um lembrete de que a memória, quando preservada, pode iluminar o presente e guiar o futuro.