Manosferas africanas: o crescimento sombrio da misoginia online
A proliferação de conteúdos misóginos nas redes sociais não é exclusividade do Ocidente. Em África, um ecossistema digital paralelo, a chamada 'manosfera', está ganhando força, disseminando ideologias prejudiciais e normalizando a violência contra as mulheres. O que antes era uma preocupação marginal, agora se apresenta como um desafio urgente e complexo, com implicações que vão além do espaço virtual.
A emergência de influenciadores misóginos
Enquanto figuras como Andrew Tate atraem notoriedade no mundo ocidental, em África, nomes como Amerix, Andrew Kibe, Naty Mon e Penuel The Black Pen estão construindo audiências consideráveis. Esses indivíduos, muitas vezes apresentando-se como gurus de autoajuda ou especialistas em masculinidade, exploram as inseguranças dos homens para promover narrativas que desvalorizam as mulheres, perpetuando estereótipos e justificando comportamentos abusivos.
Sunita Caminha, da UN Women, alerta para o aumento da presença da manosfera em África há cerca de cinco anos, corroborando dados que apontam para um problema crescente em diversos países do continente. A professora Awino Okech, da Soas University of London, ressalta que as raízes dessas ideias remetem a movimentos de direitos masculinos, como o Maendeleo ya Wanaume, mas que a internet amplificou sua disseminação e toxicidade.
A 'red pill theory', central para a manosfera, enquadra os homens como vítimas de uma sociedade distorcida pelo feminismo, incentivando a dominação e a intimidação como formas de 'restabelecer o equilíbrio'. O resultado é um ambiente online hostil, onde mulheres que expressam suas opiniões são ameaçadas e assediadas, e a violência online contra figuras femininas na política se intensifica.

Tecnologia facilitando a violência de gênero
A crescente digitalização da sociedade amplia exponencialmente as formas e os espaços para a prática da violência de gênero. A violência facilitada pela tecnologia (TFGBV), definida pela ONU como qualquer ato que utiliza tecnologias de informação e comunicação para causar dano, abrange desde o 'doxing' (divulgação de informações pessoais) até o uso de deepfakes, assédio sexual, intimidação e extorsão. Estudos indicam que até 60% das mulheres no mundo já experimentaram alguma forma de TFGBV.
A disseminação de conteúdo misógino na internet, como o promovido por figuras da manosfera, está diretamente ligada ao aumento da violência física e até mesmo do feminicídio. A linguagem utilizada para justificar a violência contra as mulheres, presente nos discursos desses influenciadores, normaliza e incentiva comportamentos perigosos.

Análise detalhada de alguns casos
Amerix (Quênia): Com 2,3 milhões de seguidores no X, Amerix combina conselhos sobre saúde masculina com atitudes profundamente misóginas, aconselhando homens a evitar relações sexuais com mulheres com mais de 30 anos e depreciando mulheres 'gordas' e 'simps'. Sua hashtag #MasculinitySaturday dissemina conselhos sobre relacionamentos e outros aspectos da vida, perpetuando estereótipos de gênero.
Andrew Kibe (Quênia): Antes de sua conta no YouTube ser desativada, Kibe acumulou mais de 420 mil seguidores. Agora, promove seu livro '28 Commandments: A Journey into Manhood', no qual aconselha homens a nunca compartilharem seus problemas com mulheres, vistas como fontes de poder ou fraqueza.
Àgbà John Doe (Nigéria): Anônimo influenciador nigeriano, Àgbà John Doe, com mais de 1,6 milhão de seguidores no X, dissemina ideias misóginas e ataca feministas, muitas vezes monetizando suas opiniões através do Creator Revenue Sharing do X.
Naty Mon (Etiópia): Com quase 500 mil seguidores no TikTok, Naty Mon entrevistava jovens mulheres em transmissões ao vivo, comentando sobre seus corpos e suas vidas sexuais, gerando críticas e acusações de assédio.
Xaliye (Somália): Baseado em Nairóbi, Quênia, Xaliye promove o retorno a papéis de gênero tradicionais, depreciando mulheres que buscam carreiras e aconselhando homens a serem cautelosos em seus relacionamentos.
Shadaya Knight (Zimbábue): Frequentemente comparado a Andrew Tate, Shadaya Knight causou controvérsia ao postar sobre a suposta ‘emasculação’ de homens em relacionamentos e ao criticar Rihanna.
Penuel The Black Pen (África do Sul): Mlotshwa mistura discussões sobre política e masculinidade com comentários misóginos, afirmando que a maioria das mulheres são 'confusas e responsáveis por famílias desfeitas' e aconselhando homens a nunca se mostrarem vulneráveis às suas parceiras.

Um futuro incerto e a necessidade de ação
A expansão da manosfera africana representa uma ameaça real à igualdade de gênero e à segurança das mulheres. A falta de dados, políticas e leis adequadas dificulta o combate a esse fenômeno, que se alimenta da desinformação e da polarização. É crucial que governos, organizações da sociedade civil e empresas de tecnologia trabalhem em conjunto para combater a violência de gênero online, promover a educação e a conscientização, e responsabilizar os influenciadores que disseminam discursos de ódio e violência. A omissão não é uma opção; o futuro da igualdade de gênero em África depende de uma resposta rápida e eficaz.
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