Mujeres desafiam a indústria com novo disco e definição de sucesso
Em meio à crescente pressão da indústria musical por números e reconhecimento imediato, a banda barcelonesa Mujeres lança 'Es un dolor inexplicable', um trabalho que se distancia da busca frenética por 'sold outs' e se ancora em uma visão mais autêntica de sucesso: manter a furgoneta cheia, mas sem a urgência do mercado.
Um retorno às raízes do garage pop
Formada por Yago Alcover (guitarra e voz), Pol Rodellar (baixo) e Arnau 'Tito' Sanz (bateria) – três cineastas que se conheceram na ESCAC no início dos anos 2000 –, a banda se distancia de um modelo de produção musical que valoriza a velocidade e a acumulação de ouvintes no Spotify. O novo disco, segundo os músicos, é uma resposta à sensação de desconforto gerada por essa cultura do imediatismo.
“Sentíamos-nos muito pouco à vontade com como está a indústria musical, especialmente no que diz respeito a escutas, Spotify e esta obsessão por lançar um single e que em 24 horas seja um recorde”, explica Sanz, revelando a frustração da banda com as expectativas impostas pela indústria. “Não nos sentimos confortáveis com estas obsessões, com estes objetivos que têm certas bandas e selos.”

A cena musical como prioridade
Apesar do nome que pode sugerir o contrário, a banda é composta exclusivamente por homens. O grupo, que se notabilizou em pequenos concertos e pela venda de discos, defende a importância de proteger os espaços que estão a desaparecer. “Somos um grupo que se deu a conhecer em salas de concerto pequenas e comprando discos, num ambiente musical que cria uma cena. E o que nos interessa é proteger justamente estes espaços que estão a desaparecer”, afirma Rodellar, com a convicção de que a cena musical local é a verdadeira força motriz da banda.
O 'Es un dolor inexplicable' reflete essa filosofia, com letras que abordam a incomodidade diante de um mundo movido por interesses alheios aos sentimentos genuínos. A banda, que tem percorrido festivais e salas por todo o território, aprendeu com uma cena que funcionava de forma autónoma e independente, e vê essa experiência como um dos seus motivos de sobrevivência após quase duas décadas de carreira.
Vinil e o resgate das lojas de discos
A aposta no vinil é mais uma demonstração do compromisso da banda com a cena musical independente. Os singles 'Alucinante', 'Después destello' e 'Caen imperios' foram lançados em formato de sete polegadas com temas inéditos na face B, distribuídos em poucas lojas especializadas. “A ideia era tirar a gente do Spotify e levar para as lojas de discos, justamente porque queremos uma cidade em que, ao sair para a rua, te possas encontrar uma loja de música ou uma sala de concertos pequena”, explica Rodellar. A banda observa, com perspicácia, como estas lojas são frequentemente prejudicadas quando grandes lançamentos as ignoram, como aconteceu com Rosalía inicialmente.
A primeira face do disco é frenética, enquanto a segunda se relaxa, explorando as nuances entre as duas facetas, como detalha Rodellar. O sucesso, para os Mujeres, não se mede em números de streaming, mas sim na simplicidade de manter a furgoneta a funcionar. “O sucesso é não descarregar a furgoneta na segunda-feira!”, brinca Sanz, sintetizando a filosofia despretensiosa da banda.