Patti smith, a poeta do punk, recebe o prémio princesa de astúrias

Num reconhecimento que transcende a mera música, Patti Smith, a icónica figura do punk rock, foi agraciada com o Prémio Princesa de Astúrias em Artes. A distinção, anunciada esta quarta-feira, celebra não apenas a sua inconfundível presença cénica e a voz que galvanizou gerações, mas também a sua profunda e persistente intervenção na cultura, através da poesia, da escrita e da fotografia.

Um legado de vozes e resistência

A escolha de Smith, aos 78 anos, surge num momento de turbulência global, um cenário que ela própria tem denunciado com veemência. A sua música, e em particular o hino “People Have The Power”, tem sido um chamado à ação, um convite à união e à responsabilidade colectiva perante os desafios que o mundo enfrenta. “Precisamos de uma consciência global, de uma unidade de milhões”, declarou em entrevista, ecoando a mensagem que sempre perseguiu.

A sua crítica contundente ao então candidato Donald Trump, mesmo antes da sua eleição em 2016, sinalizou um posicionamento firme contra o que considerava um “nefasto invento dos meios de comunicação e do partido republicano”. O Prémio Princesa de Astúrias, portanto, honra uma artista que se manteve fiel aos seus princípios, mesmo em tempos sombrios.

A defesa dos direitos palestinianos é outro ponto fulcral no legado de Smith. Em 2004, a sua canção “Peaceable Kingdom” homenageou Rachel Corrie, a ativista americana assassinada por um bulldozer israelita enquanto protestava contra a demolição de casas em Gaza. Um testemunho da sua coragem e do seu compromisso com a justiça social.

Do punk rock à poesia: uma trajetória polifacética

Do punk rock à poesia: uma trajetória polifacética

O reconhecimento chega poucos meses após o 50º aniversário do álbum “Horses” (1975), um marco inaugural do punk rock, que combinou a rebeldia sonora com a profundidade poética das letras de Smith. A sua influência, que remete para a intensidade de Rimbaud e o carisma de Jim Morrison, catapultou-a para a ribalta como uma das vozes mais originais e impactantes da sua geração.

Desde o início da sua carreira, Smith tem sido impulsionada pela paixão pela escrita, pela poesia, inspirada por autores como Roberto Bolaño, Haruki Murakami e Jack Kerouac. “Desde o sul de Jersey em 1965 vim para Nova Iorque só para deambular pelas suas ruas, e nada me parecia mais romântico que sentar-me a escrever poesia numa cafetaria do Greenwich Village”, recordou numa das suas obras biográficas, “M Train”.

A sua relação com Fred “Sonic” Smith, guitarrista e seu marido, é outra dimensão fundamental da sua vida e obra. Apesar da sua morte em 1994, Smith continua a referir-se a ele como “o melhor novio do mundo”, dedicando-lhe canções inesquecíveis, incluindo “Because The Night”, co-escrita com Bruce Springsteen.

A sua ligação a Espanha, que culminou com a Medalha de Ouro de Belas Artes em 2019, demonstra o apreço que nutre por esta cultura. Patti Smith não é apenas uma artista; é um ícone de liberdade, um farol de esperança num mundo em crise. O seu legado, tecido com palavras, música e ações, continua a inspirar a luta por um futuro mais justo e solidário.