Ue: de paz a poderio militar? uma reviravolta surpreendente
Imagine explicar a um burocrata europeu dos anos 90 que a União Europeia, concebida como um projeto de paz, um dia estaria a comandar navios a interceptar mísseis no Mar Vermelho. A realidade superou a ficção, revelando uma transformação radical nas ambições e capacidades de defesa do bloco.

Um exército em ascensão, ou ilusão?
O General Sean Clancy, figura central no Comité Militar da UE, pintou um quadro complexo e, para muitos, surpreendente. A UE, outrora vista como um gigante económico hesitante em questões militares, está a investir pesadamente em defesa, com um pacote de 150 mil milhões de euros destinado a armar os Estados-membros. Mas a promessa de um corpo expedicionário de 50 a 60 mil soldados, outrora um pilar do planeamento europeu, parece ter ficado preso num limbo teórico, como aponta Sven Biscop. O foco agora recai sobre as Rapid Deployment Capabilities (RDCs), unidades menores e mais ágeis, com um potencial real de implementação.
A mudança de paradigma é clara. A UE não se pretende tornar um exército europeu no sentido tradicional, mas sim um facilitador, um catalisador para que os Estados-membros alcancem os seus objetivos de defesa, especialmente no contexto da incerteza em torno do apoio americano à OTAN. A sombra de Donald Trump e questionamentos sobre o futuro da aliança transatlântica pairam sobre a Europa, incentivando uma busca por autonomia estratégica.
A Operação Aspides no Mar Vermelho, a missão de defesa marítima lançada em fevereiro de 2024, ilustra tanto o potencial quanto as limitações da UE. Apesar de ter protegido 600 navios e abatido mísseis e drones, o incidente em que uma fragata alemã disparou acidentalmente contra um drone americano revelou fragilidades significativas na coordenação e nas capacidades de defesa aérea. Alex Luck, analista naval, sublinha a insuficiência de equipamentos em vários países, incluindo Dinamarca e Bélgica.
Apesar do ceticismo em relação a um envolvimento direto em conflitos, a UE aposta na unificação da indústria de defesa europeia. A proliferação de diferentes tipos de tanques em cada país é um exemplo gritante da ineficiência atual. O objetivo é incentivar a compra conjunta, reduzindo a dependência de fornecedores estrangeiros – um objetivo que, inevitavelmente, gera atritos com os Estados Unidos e com membros da OTAN que não pertencem à UE, como o Reino Unido.
A mobilidade militar surge como outro ponto crucial. A ambição de criar um “Schengen militar”, com autorizações simplificadas para o trânsito de equipamentos militares, é um passo fundamental para aumentar a capacidade de resposta da UE. O orçamento para 2028-2034 prevê um aumento de dez vezes nos gastos com mobilidade, um sinal claro da prioridade dada à agilidade.
Putin pode não ser dissuadido por estratégias ou políticas, afirma o General Clancy. O que importa é a sua implementação. A UE, confrontada com um cenário geopolítico volátil e com a incerteza do futuro da OTAN, está a repensar o seu papel na segurança europeia. O artigo 42(7), a cláusula de defesa mútua da UE, está a ganhar importância, embora a coordenação com a OTAN permaneça fundamental para evitar sobreposições e garantir a coesão.
A recente prorrogação da Operação Aspides, apesar das suas limitações, demonstra a determinação da UE em proteger os seus interesses e de se posicionar como um ator relevante na arena global. A Europa pode não estar pronta para um confronto direto com a Rússia, mas a sua determinação em fortalecer as suas capacidades de defesa e em assumir um papel mais ativo na segurança do continente é inegável. O futuro dirá se esta aposta se revelará um trunfo ou uma miragem.
