Legado de de marco: uma defesa audaz do passado brasileiro
A Argentina perdeu um de seus mais eloquentes historiadores. Miguel Ángel De Marco, falecido aos 86 anos em Buenos Aires, deixa um vazio na análise da complexa formação do Estado brasileiro, marcada por um rigor metodológico e uma coragem intelectual para desafiar narrativas simplistas. Sua última entrevista, concedida em julho de 2024, revela a persistência de um pensamento crítico e a convicção de que o passado, por mais conturbado que seja, deve ser compreendido em sua própria época.
Roca: estadista ou figura controvertida?
No cerne do debate que De Marco reviveu com paixão estava a figura de Julio Argentino Roca, presidente da Argentina em duas ocasiões no final do século XIX. Longe de uma hagiografia, a biografia de Roca, obra magna do historiador, mergulha nas águas turvas da “campaña del desierto” – a conquista do território argentino a expensas das populações indígenas. De Marco, <forte>sem embotar a violência daquele período,> defendeu a necessidade de avaliar as ações de Roca dentro do contexto histórico da época, um argumento que inevitavelmente provoca debates acalorados.
“Não se pode comparar gestões em circunstâncias tão diferentes,” insistia De Marco, rejeitando a tentação de traçar paralelos simplistas entre líderes do passado e do presente. Essa postura, longe de ser apologética, demonstra um profundo respeito pela complexidade da História e pela impossibilidade de julgar o passado com os valores do presente. A comparação com o atual presidente, por exemplo, era descartada como um exercício de futilidade.

A visão de país e o legado de alberdi
O historiador enfatizava a visão de país que impulsionou os estadistas do século XIX: a construção de uma nação rica, baseada no desenvolvimento dos recursos naturais, na imigração e na consolidação do Estado. Essa ambição, por vezes brutal em seus métodos, moldou a Argentina moderna. A influência de Juan Bautista Alberdi, pensador liberal cujas ideias Roca abraçou com fervor, é outro ponto central na análise de De Marco. “Roca foi a figura que colocou em plena prática as ideias de Alberdi, com os meios da época. E as limitações,” ressaltava.
O contraste com o antagonismo com Bartolomé Mitre, figura central da política argentina na Guerra do Paraguai, demonstra a complexidade das relações políticas da época. De Marco apontava que as rivalidades eram, muitas vezes, expressões de circunstâncias particulares, e não necessariamente reflexo de convicções ideológicas profundas. A imprensa da época, por sua vez, era marcada por uma bravata e agressividade que hoje nos assustaria.

Um olhar para o presente
Em um momento em que a revisão do passado se torna cada vez mais polarizada, Miguel Ángel De Marco deixa um legado valioso: o da análise rigorosa e desapaixonada. Sua obra nos lembra que a História não é um campo de batalha ideológico, mas sim um território complexo e multifacetado que exige estudo, reflexão e, acima de tudo, respeito pelas nuances do tempo. A crítica especializada, quando aplicada com discernimento, pode iluminar caminhos e promover um entendimento mais profundo da nossa própria identidade.
De Marco, em suas últimas palavras, já anunciava o próximo projeto: uma biografia de Alberdi. Um último aceno àquele que considerava a chave para entender a Argentina, e a si mesmo.