Ilhas do pacífico: o mar avança e a saúde desaba
Nas ilhas do Pacífico, o mar não espera por negociações climáticas. Em Honiara, nas Salomão, o antigo ministro da saúde de Tonga, Dr. Saia Ma’u Piukala, testemunhou cenas que ecoam em outras nações insulares: o mar invadindo os muros do principal hospital. Um prenúncio sombrio de um futuro que já começou e que ameaça a própria existência de comunidades inteiras.
A emergência sanitária ampliada pelas águas
Não se trata apenas de um hospital inundado. O avanço do mar salgado contamina fontes de água doce, propaga doenças infecciosas, gera insegurança alimentar e deslocamentos forçados, tudo isso agravando a saúde mental das populações. A situação é tão crítica que, durante a Assembleia Geral da ONU sobre o aumento do nível do mar, representantes de pequenos estados insulares clamaram por ação urgente, lembrando que eles contribuíram minimamente para essa crise global, mas são os que mais sofrem com suas consequências.
A primeira-ministra de Samoa, Afioga Fiamē Naomi Mataʻafa, expressou a angústia de seu povo: “Nós contribuímos quase nada para essa praga global, mas é a nossa terra que está sendo consumida pelo mar”. Essa declaração inflamou a criação da Comissão Lancet sobre o aumento do nível do mar e a saúde, um painel de especialistas liderado por Christiana Figueres e pelo próprio Dr. Piukala. A questão central que a comissão enfrenta é brutal: quem pagará a reconstrução de cidades como Honiara, quando a culpa recai sobre as corporações e os países mais poluentes?

Um impacto desproporcional e injusto
Em 14 países do Pacífico, 62% das infraestruturas de saúde estão a menos de 500 metros da costa. A urgência é inegável. Segundo o Dr. Piukala, “As consequências da inação são agora severas demais para serem ignoradas. A evidência do dano à saúde relacionado ao clima é esmagadora e irrefutável.” Ele, como médico e ex-ministro da saúde, enfatiza que a saúde é, em última análise, uma escolha política.
Mas os impactos vão além da contaminação da água. A salinidade crescente eleva a pressão arterial, danificando o coração, os rins e os vasos sanguíneos. A destruição das plantações leva à desnutrição, roubando o sustento de famílias inteiras.

O sofrimento silenciado das mulheres
O aumento do nível do mar não afeta a todos da mesma forma. Em muitas nações, as mulheres são as principais responsáveis pela coleta de água, e a poluição força-as a percorrer distâncias cada vez maiores, expondo-as à violência sexual, exploração e doenças transmitidas pela água. As tempestades se tornam mais perigosas, e os abrigos de emergência, superlotados e insalubres, colocam as mulheres e meninas em risco.
Grávidas e crianças pequenas são particularmente vulneráveis à contaminação da água, e a dificuldade de acesso aos serviços de saúde agrava os riscos para a gravidez e a saúde infantil. Sunita Narain, diretora do Centro para Ciência e Meio Ambiente da Índia, ressalta: “É claro que as mulheres são atingidas de forma desproporcional. O aumento da frequência e intensidade desses eventos climáticos pressiona os meios de subsistência, levando os homens a migrar em busca de trabalho, o que coloca pressão adicional sobre as mulheres para sobreviver.”

A perda da identidade e o futuro em jogo
Mesmo quando a realocação é planejada, ela causa profundos impactos: a educação, a moradia e outros serviços essenciais precisam ser transferidos. Para o Dr. Piukala, “Nações insulares como Kiribati, Nauru, as Ilhas Marshall e Tuvalu estão vendo famílias serem expulsas de suas terras ancestrais. Isso desestabiliza os sistemas alimentares, as práticas comunitárias e a coesão social. Proteger a saúde significa salvaguardar tanto as instalações físicas quanto as profundas conexões com o lugar que sustentam o bem-estar.”
A Comissão Lancet focará em áreas onde os sistemas de saneamento estão comprometidos, as doenças transmitidas pela água e pelos vetores estão se acelerando e os serviços de saúde estão sobrecarregados. Até o final de 2027, apresentará recomendações para governos, instituições e sociedade civil. Kathryn Bowen, co-presidente da comissão, alerta: “Precisamos urgentemente reduzir nossas emissões. Não podemos nos adaptar a essa realidade.” O futuro das ilhas do Pacífico, e de bilhões de pessoas em todo o mundo, depende da coragem de enfrentar a verdade e agir agora.