Fúria anti-imigrante e crise no laborismo: brexit e insegurança alimentam o medo

Uma mulher, rosto marcado pela preocupação, murmurou: “Bom, que bom. Precisamos do país seguro.” A frase ecoou numa rua de Ashton-in-Makerfield, um microcosmo de uma Inglaterra em ebulição. A aparente simplicidade esconde uma realidade complexa, alimentada por décadas de discurso anti-imigração e um medo palpável.

A realidade macabra: criminalidade em declínio, medo em ascensão

A realidade macabra: criminalidade em declínio, medo em ascensão

Apesar de um aumento significativo da imigração nas últimas duas décadas – um dado que, segundo as estatísticas, deveria gerar receios – as taxas de homicídio e os casos de agressão com armas brancas têm vindo a diminuir de forma consistente. No entanto, a percepção de insegurança persiste, alimentada por um ciclo vicioso de narrativa e desinformação.

A situação eleitoral em Makerfield é um prenúncio do futuro do Laborismo. Andy Burnham tem a tarefa hercúlea de resgatar um partido diluído, confrontando a sombra iminente de Nigel Farage e o ressurgimento de forças de extrema-direita, lideradas por Rupert Lowe e o seu ‘Restore Britain’.

A chave para o sucesso de ambos os lados – Reform e Restore – reside na exploração da retórica anti-imigração. Mesmo em uma circunscrição com menos de um em vinte residentes estrangeiros – uma fração da média para Inglaterra e País de Gales – a preocupação com a “invasão” é onipresente, atingindo cerca de um quarto da população.

Os números da imigração líquida, que caiu de 944.000 no pico pós-pandemia para 171.000 no último ano, não convencem. A maioria dos britânicos – apenas 16% – acredita que a imigração diminuiu, enquanto 49% a considera que aumentou. Esta descoordenação entre a realidade e a percepção é um terreno fértil para o radicalismo.

Farage, agora, alimenta o fogo da discriminação, exigindo a deportação de imigrantes legais. A retórica tóxica, exacerbada pelas recentes mortes de jovens negros e imigrantes, encontra eco em uma sociedade já fragilizada por défices e a sensação de abandono pelas instituições.

A “solução” simplista de ‘eliminar metade dos imigrantes’ – um grito ecoado por uma senhora em Ashton-in-Makerfield – ignora a realidade económica: os imigrantes contribuem mais para as finanças públicas do que consomem. No entanto, o Laborismo, ao perpetuar a polarização, falhou em abordar o problema estrutural da escassez de recursos e da crescente desigualdade.

A ironia é amarga: os cidadãos, confrontados com a percepção de uma ‘guerra’ por recursos cada vez mais escassos, alimentam a sua ira contra aqueles que consideram ‘pegar’ o que lhes pertence. A pergunta que paira no ar é: Burnham conseguirá oferecer uma alternativa à ‘guerra’ ou se entregará à lógica da divisão?

O ‘Restore Britain’ de Lowe, com a sua promessa de “mudança radical” nos impostos sobre propriedades e negócios, representa um desafio real. Mas a verdadeira aposta reside na capacidade de Burnham de confrontar as raízes da crise – a falência do modelo neoliberal e a incapacidade de oferecer um futuro seguro e próspero. É uma batalha que, se perdida, poderá levar a um governo autoritário, confortável com o discurso da ‘pureza étnica’.