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Livros estampados: editoras reagem à ameaça da ia com selo 'humanamente escrito'

Londres – Uma cena que parece saída de um romance distópico se desenrola na London Book Fair: livros agora ostentam selos "Humanamente Escrito". A iniciativa da Society of Authors é vista como um escudo contra o conteúdo gerado por inteligência artificial, que ameaça a criatividade humana.

A ascensão da ia e o medo da perda de direitos

A ascensão da ia e o medo da perda de direitos

O gesto, acompanhado da distribuição de livros em branco da editora Don't Steal This Book, que inclui obras de autores como Kazuo Ishiguro e Jeanette Winterson, reflete um crescente descontentamento entre escritores. A mensagem é clara: o governo do Reino Unido precisa agir para impedir a legalização do roubo de obras literárias para treinar modelos de linguagem artificial.

Um estudo da University of Cambridge revelou que quase 60% dos autores publicados acreditam que seu trabalho foi usado sem autorização ou remuneração para alimentar grandes modelos de linguagem. Quase 40% relataram uma queda em sua renda devido à inteligência artificial e à proliferação de romances gerados por máquina, uma espécie de versão digital do Versificador de 1984 de George Orwell.

Livros factuais são os mais vulneráveis ao ChatGPT. Enquanto as vendas de ficção se mantêm estáveis (impulsionadas, em parte, pelo boom dos romances romantasy), as vendas de não ficção caíram 6% no ano passado, o menor nível desde 2014. Contudo, três títulos de não ficção, escritos por mulheres, desafiaram essa tendência: o livro de memórias de Virginia Giuffre sobre Jeffrey Epstein, a autobiografia de Gisèle Pelicot sobre seu relacionamento abusivo e o livro de Sarah Wynn-Williams sobre o ambiente de trabalho no Facebook. Esses sucessos demonstram o poder das narrativas pessoais, a necessidade de confiança na autenticidade das vozes.

Sarah Hall, autora de Helm, solicitou que sua editora Faber imprimisse o selo "Humanamente Escrito" em sua última obra. "A IA pode imitar palavras mais rapidamente, mas. ela não sangrou nas páginas. E não tem uma família para sustentar", declarou a autora. Os meios de subsistência dos escritores não podem ser sacrificados em nome do crescimento econômico.

As indústrias criativas do Reino Unido contribuíram com £124 bilhões para a economia em 2023, sendo £11 bilhões provenientes da publicação. A Society of Authors exige consentimento e remuneração justa pelo uso de obras, além de transparência sobre como um livro foi "escrito". Não são propostas radicais, mas necessárias em uma era de notícias falsas e conteúdo gerado por IA.

Um relatório da House of Lords apresenta dois cenários: um em que o Reino Unido se torna um líder global no desenvolvimento responsável e legalizado da IA, e outro em que continua a tolerar o uso não autorizado de conteúdo criativo em larga escala. Um cenário protege os artistas britânicos, o outro beneficia as gigantes da tecnologia. A escolha é clara: evitar um futuro de conteúdo vazio.

A proteção da autoria não é apenas uma questão financeira; é sobre preservar a voz humana e a memória coletiva. O selo "Humanamente Escrito" é um primeiro passo, mas a legislação robusta é o que realmente garantirá o futuro da literatura.